Ambivalência

2020

Andar pelo cerrado, sentir o cheiro do verde, olhar para o alto e enxergar o vento na copa das árvores, em silêncio olhar para dentro, ouvir o estalar das folhas, caminhar um pouco mais, pisar o chão, observar o restos das árvores tornarem-se adubo ao que está por vir. Encontro um tronco de árvore queimado, isolado na paisagem, é o cerrado dando lugar a plantios de monocultura e novas pastagens. Interrompo o fluxo, fotografo um resto frágil que pulsa, que pede a atenção. Ambivalência dá visibilidade ao Cerrado Tocantinense a partir de fotografias impressas em tecido. Usar o tecido como suporte está muito além de uma experiência estética. O linho é um tecido fino, elegante, de valor, mas sem a proteção da costura pode desfiar, sujar, amassar, criar vincos, ao mesmo tempo em que nos permite expor delicadamente em suas tramas, dois lados, numa transparência opaca e fosca. O suporte em tecido é também lugar de conflito, instável, que pede atenção intensa à sua fragilidade. A série, numa poética rústica, está na contramão de uma performance ativista e utilitária das imagens. Parto do Cerrado para falar, quem sabe, de nós mesmos, de nossa intimidade, de nossas limitações, de nosso próprio cotidiano. Aqui importa a travessia (a nossa travessia) para/com as imagens e seus sentidos. De um lado, estamos diante de um ecossistema brasileiro que sofre inúmeras ameaças, em especial na região Norte do Brasil. O Cerrado é o segundo maior bioma da América do Sul, mesmo assim, todos os anos têm que lidar com as queimadas e o descaso nas instâncias macro e micropolíticas brasileiras. As fotografias dão a ver e colocam “na mira” a potência e a força deste bioma além de evidenciar a poética contida nas tramas da mata de galeria. O bioma persiste, insiste, resiste. De outro lado, é a fragilidade humana, seu distanciamento da natureza, sua negligência e quase uma ausência de atenção à vida que também é exposta. Diante dessas fragilidades, não há um sentido de realidade, de totalidade, de verdade, há ambivalência, desejos, fantasias, sonhos que marcam modos de viver e habitar a Terra, nossa casa, nosso chão. A poética do que nos é familiar - o cerrado - é um convite para sentir a intensidade de cada imagem num modo de ver atravessado pelo afeto, pela memória, pelo sensível. Um exercício de olhar que vagueia os olhos pela fotografia sem pressa, como um gesto de interrupção. O fio condutor da ambivalência e da fragilidade, suspende a passagem do tempo para justamente criar narrativas, estimular pensamentos ou como nos sugere o escritor Rubem Fonseca, inventar condições para “vastas emoções e pensamentos imperfeitos”.